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Adeus à Fada Matilde

matildeMatilde Rosa Araújo morreu esta madrugada na sua casa, aos 89 anos. Sócia fundadora do Instituto de Apoio à Criança e Directora do Boletim do IAC, Matilde Rosa Araújo nasceu em Lisboa em 1921, licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e foi professora do Ensino Técnico Profissional e do primeiro Curso de Literatura para a Infância, que teve lugar na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Autora de livros de contos e poesia para adultos e crianças, a sua temática centra-se em torno de três grandes eixos de orientação: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto. Dedicou-se, ao longo da sua vida, aos problemas da criança e à defesa dos seus direitos. Foi galardoada com os seguintes prémios de Literatura para a Infância:

Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian ex-aequo com Ricardo Alberty, em 1980; Prémio atribuído pela primeira vez, para o melhor livro estrangeiro (novela O Palhaço Verde), pela Associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, em 1991; Prémio para o melhor livro para a Infância publicado no biénio 1994-1995, pelo livro de poemas Fadas Verdes, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1996.

O corpo será velado, hoje na sede da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa.

“Teve o IAC o privilégio de ser assistido na sua concepção, nascimento e crescimento por um SÁBIO e uma FADA. Foram eles, cujos saberes e dizeres se congregaram ao traçar o caminho da utopia que queremos continuar a percorrer. Refiro-me a João dos Santos quando declara que o “segredo do homem é a própria infância” e a Matilde Rosa Araújo quando desvenda a seriedade poética e dramática desses segredos da “infância dourada, infância agredida ou infância como projecto.”

QUEM É A FADA MATILDE?

matilde2É uma entidade feminina, com características simultaneamente humanas e divinas e que se desloca entre o real de uns e o imaginário de outros e segue itinerários misteriosos que, umas vezes, permitem conhecer a miséria, o sofrimento e outras levam ao encontro com a beleza, a alegria e o maravilhoso. Se, a sua presença é facilmente associada à suavidade, à ternura e à delicadeza dos seus gestos e da sua figura, a força das suas palavras, a intencionalidade da sua obra e o exemplo de generosidade da sua vida revelam uma mulher de grande sensibilidade, determinada nas suas convicções, profundamente consciente da sua responsabilidade poética e social sempre pronta “… … a lutar com armas de amor pelos Direitos da Criança … a tornar o presente autêntica construção do futuro…”. Para além do encanto pessoal com que nos fascina e do espírito de humor subtil, com que às vezes nos surpreende, a Fada Matilde tem instrumentos mágicos, e é com eles que procura proteger os mais indefesos e culpabilizar os que se esquecem do sofrimento alheio, sobretudo do sofrimento das Crianças. Como instrumentos mágicos a fada Matilde usa o AMOR e a PALAVRA e sabe utilizá-los de uma forma muito especial a que se chama “Poesia”, pois além de mulher ela é escritora e gosta de usar as palavras em defesa do “sagrado direito de viver”. Matilde tem percorrido o caminho desta utopia que é o IAC, ao longo de trinta anos, tempo suficiente para reconhecer a importância da sua presença. Podemos dizer que o seu exemplo tem ajudado a definir o “estilo” discreto, compreensivo e tolerante com que nos identificamos, mas é a sua obra que nos ensina a procurar o segredo oculto de cada homem e a encontrar o mistério redentor de todas as infâncias. Na vida e na obra de Matilde Rosa Araújo estabelece-se permanentemente um diálogo entre a realidade de cada criança e o imaginário de cada adulto, que dela se aproxima ou afasta, no balouçar das suas próprias memórias, no vai e vem das suas experiências de vida, no assumir da sua humanidade. Ela sabe, como ninguém, realçar de modo poético e realista a infância mais ou menos escondida de cada adulto e a expectativa de ser homem que existe em cada criança. (…)

Muito obrigada. Bem-haja grande fada Matilde, sem si a imagem do IAC seria muito, muito mas muito mais pobre. Obrigada. ”

Comunicação da Dra. Natália Pais, no dia 19 de Abril de 2007, no encontro "Pela defesa dos direitos da criança - Novas realidades, novos interesses, novos desafios"

Excertos da Separata n.º 24 do Boletim do IAC n.º 84. Ver texto completo Aqui.

 

Os Direitos da Criança


1.

A criança,

Toda a criança.

Seja de que raça for,

Seja negra, branca, vermelha, amarela,

Seja rapariga ou rapaz.

Fale que língua falar,

Acredite no que acreditar,

Pense o que pensar,

Tenha nascido seja onde for,

Ela tem direito...

 

2.

...A ser para o homem a

Razão primeira da sua luta.

O homem vai proteger a criança

Com leis, ternura, cuidados

Que a tornem livre, feliz,

Pois só é livre, feliz

Quem pode deixar crescer

Um corpo são,

Quem pode deixar descobrir

Livremente

O coração

E o pensamento.

Este nascer e crescer e viver assim

Chama-se dignidade.

E em dignidade vamos

Querer que a criança

Nasça,

Cresça,

Viva...

 

3.

...E a criança nasce

E deve ter um nome

Que seja o sinal dessa dignidade.

Ao Sol chamamos Sol

E à Vida chamamos Vida.

Uma criança terá o seu nome também.

E ela nasce numa terra determinada

Que a deve proteger.

Chamemos-lhe Pátria a essa terra,

Mas chamemos-lhe antes Mundo...

 

4.

...E nesse Mundo ela vai crescer:

Já sua mãe teve o direito

A toda a assistência que assegura um nascer perfeito.

E, depois, a criança nascida,

Depois da hora radial do parto,

A criança deverá receber

Amor,

Alimentação,

Casa,

Cuidados médicos,

O amor sereno de mãe e pai.

Ela vai poder

Rir,

Brincar,

Crescer,

Aprender a ser feliz...

 

5.

...Mas há crianças que nascem diferentes

E tudo devemos fazer para que isto não aconteça.

Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.

 

6.

E a criança nasceu

E vai desabrochar como

Uma flor,

Uma árvore,

Um pássaro,

E

Uma flor,

Uma árvore,

Um pássaro

Precisam de amor – a seiva da terra, a luz do Sol.

De quanto amor a criança não precisará?

De quanta segurança?

Os pais e todo o Mundo que rodeia a criança

Vão participar na aventura

De uma vida que nasceu.

Maravilhosa aventura!

Mas se a criança não tem família?

Ela tê-la-á, sempre: numa sociedade justa

Todos serão sua família.

Nunca mais haverá uma criança só,

Infância nunca será solidão.

 

7.

E a criança vai aprender a crescer.

Todos temos de a ajudar!

Todos!

Os pais, a escola, todos nós!

E vamos ajudá-la a descobrir-se a si própria

E os outros.

Descobrir o seu mundo,

A sua força,

O seu amor,

Ela vai aprender a viver

Com ela própria

E com os outros:

Vai aprender a fraternidade,

A fazer fraternidade.

Isto chama-se educar:

Saber isto é aprender a ensinar.

 

8.

Em situação de perigo

A criança, mais do que nunca,

Está sempre em primeiro lugar...

Será o Sol que não se apaga

Com o nosso medo,

Com a nossa indiferença:

A criança apaga, por si só,

Medo e indiferença das nossas frontes...

 

9.

A criança é um mundo

Precioso

Raro.

Que ninguém a roube,

A negoceie,

A explore

Sob qualquer pretexto.

Que ninguém se aproveite

Do trabalho da criança

Para seu próprio proveito.

São livres e frágeis as suas mãos,

Hoje:

Se as não magoarmos

Elas poderão continuar

Livres

E ser a força do Mundo

Mesmo que frágeis continuem...

 

10.

A criança deve ser respeitada

Em suma,

Na dignidade do seu nascer,

Do seu crescer,

Do seu viver.

Quem amar verdadeiramente a criança

Não poderá deixar de ser fraterno:

Uma criança não conhece fronteiras,

Nem raças,

Nem classes sociais:

Ela é o sinal mais vivo do amor,

Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.

Frágil e forte, ao mesmo tempo,

Ela é sempre a mão da própria vida

Que se nos estende,

Nos segura

E nos diz:

Sê digno de viver!

Olha em frente!

Lançamento da 3a Edição do “Guia dos Direitos da Criança”

INSTITUTO DE APOIO À CRIANÇA

Lançamento da 3a Edição do “Guia dos Direitos da Criança”

Hospital de São João
Aula Magna da Faculdade de Medicina do Porto
17 de Maio de 2010

No âmbito da Defesa e Promoção dos Direitos da Criança, o Instituto de Apoio à Criança, no próximo dia 17 de Maio, pelas 12H00, no Hospital de São João - Aula Magna da Faculdade de Medicina do Porto, vai lançar a 3a Edição do “Guia dos Direitos da Criança” da autoria de Ana Perdigão e Ana Sotto Mayor Pinto, técnicas do IAC.

O RELATÓRIO CHILD TRAFFICKING IN THE EUROPEAN UNION

O relatório Child Trafficking in the European Union - Challenges, perspectives and good practices, que reúne informação sobre a situação do tráfico de crianças nos vinte e sete Estados-membros da União Europeia com base em relatórios de cada país desenvolvidos em 2008 pela FRALEX, uma rede europeia de especialistas em legislação.

Largo da Memória, 14, 1349-045 LISBOA +351 213 617 880Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.