E se o “não fazer nada” for aquilo que a criança precisa?

A frase “Não tenho nada para fazer” geralmente desperta preocupação nos pais, que se sentem na necessidade de intervir e de preencher o tempo livre dos filhos com alguma tarefa, com tempo num ecrã ou uma orientação ou sugestão de actividade.

Esta necessidade, que parte do adulto, de ajudar a preencher este “nada para fazer”, é explicada porque, por um lado, encontramo-nos a viver numa cultura que valoriza a produtividade e que associa o “estar ocupado” a ser útil e bem-sucedido. Por outro lado, o silêncio e a desocupação, podem ser desconfortáveis porque trazem consigo pensamentos, preocupações ou emoções que ficam mais camuflados quando há acção constante.

O aborrecimento não deve ser olhado como um vazio, mas sim como um espaço onde a mente desacelera e onde se tem oportunidade de criar o seu próprio entretenimento, fundamentais para o desenvolvimento da criatividade.

Hoje em dia, no entanto, este espaço de “não fazer nada” e livre de estímulos costuma ser, rapidamente, ocupado pelos ecrãs e pelas redes sociais. Nas consultas com crianças e jovens, no Consultório Social, os Psicólogos confrontam-se, frequentemente, com uma profunda e constante ligação ao mundo digital, que depois se traduz numa enorme dificuldade em tolerar momentos de pausa, de silêncio ou aborrecimento.

Da próxima vez que estiver nos transportes públicos, numa sala de espera ou até mesmo num restaurante, repare como praticamente toda a gente se encontra de cabeça baixa a olhar para o telemóvel. Parece que, sempre que surge um vazio, há uma necessidade quase imediata de o preencher com estímulos rápidos e constantes vindos do telemóvel.

Embora as redes sociais possam trazer benefícios quando usadas de forma equilibrada, o contacto excessivo e precoce com este tipo de estímulos tem impacto na forma como as crianças e os jovens pensam, sentem e se relacionam consigo e com os outros. A constante alternância de conteúdos rápidos e altamente estimulantes dificulta a capacidade de concentração, reduz a tolerância à espera e torna mais difícil sustentar a atenção em tarefas simples do quotidiano. A mente habitua-se ao imediato, ao entretenimento constante e à recompensa rápida.

Ao mesmo tempo, as redes sociais expõem crianças e adolescentes a comparações permanentes com vidas, corpos e rotinas idealizadas. Esta comparação constante pode fragilizar a autoestima, aumentar sentimentos de inadequação e contribuir para ansiedade, insegurança e maior dependência da validação externa. Além destes riscos, existe, igualmente, o perigo do contacto com pessoas estranhas que podem desviar para caminhos maliciosos.

Preencher o tempo de “não fazer nada” com o recorrer aos ecrãs, leva a que as crianças e os jovens não descubram nem estimulem os seus recursos internos e, assim, é perdida a oportunidade de desenvolver autonomia e tolerância à frustração. Garantidamente não é no excesso de estímulos que a imaginação e a criatividade têm espaço para surgir e crescer. Tornar o ambiente mais leve e mais livre de estímulos, permite desenvolver maior capacidade de concentração e equilíbrio emocional.

No entanto, há que ter em atenção que isto não significa que todas as formas de aborrecimento sejam positivas, nem que os adultos devam manter-se sempre ausentes. É necessário distinguir entre aborrecimentos pontuais e saudáveis de estados prolongados de apatia ou desmotivação. Significa, sim, que nem todos os momentos precisam de ser orientados. Saber esperar deve ser algo valorizado e deverá ser capaz de confiar que o seu filho encontrará o seu próprio caminho para sair do estado de aborrecimento e com todos os benefícios que isso lhe trará.

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